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sábado, 1 de janeiro de 2011

O Mito da Caverna


Olá, amigos! Feliz 2011! Ainda to me recuperando, mas se Deus quiser estarei bem o quanto antes. Para abrir o ano bem, coloco aqui um dos textos que mais gosto: O Mito da Caverna, de Platão. E para entender ainda mais, coloco uma sábia historinha da Turma da Mônica (clique nas imagens para vê-las maiores). Quem ainda não leu, não será mais o mesmo... hehehehehe



O MITO DA CAVERNA
Extraído de "A República" de Platão . 6° ed. Ed. Atena, 1956, p. 287-291


SÓCRATES – Figura-te agora o estado da natureza humana, em relação à ciência e à
ignorância, sob a forma alegórica que passo a fazer. Imagina os homens encerrados em
morada subterrânea e cavernosa que dá entrada livre à luz em toda extensão. Aí, desde a
infância, têm os homens o pescoço e as pernas presos de modo que permanecem imóveis e
só vêem os objetos que lhes estão diante. Presos pelas cadeias, não podem voltar o rosto.
Atrás deles, a certa distância e altura, um fogo cuja luz os alumia; entre o fogo e os cativos
imagina um caminho escarpado, ao longo do qual um pequeno muro parecido com os
tabiques que os pelotiqueiros põem entre si e os espectadores para ocultar-lhes as molas dos
bonecos maravilhosos que lhes exibem.

GLAUCO - Imagino tudo isso.

SÓCRATES - Supõe ainda homens que passam ao longo deste muro, com figuras e objetos
que se
elevam acima dele, figuras de homens e animais de toda a espécie, talhados em pedra ou
madeira. Entre os que carregam tais objetos, uns se entretêm em conversa, outros guardam
em silêncio.

GLAUCO - Similar quadro e não menos singulares cativos!

SÓCRATES - Pois são nossa imagem perfeita. Mas, dize-me: assim colocados, poderão ver
de si mesmos e de seus companheiros algo mais que as sombras projetadas, à claridade do
fogo, na parede que lhes fica fronteira?

GLAUCO - Não, uma vez que são forçados a ter imóveis a cabeça durante toda a vida.
SÓCRATES - E dos objetos que lhes ficam por detrás, poderão ver outra coisa que não as
sombras?

GLAUCO - Não.

SÓCRATES - Ora, supondo-se que pudessem conversar, não te parece que, ao falar das
sombras que vêem, lhes dariam os nomes que elas representam?

GLAUCO - Sem dúvida.

SÓRATES - E, se, no fundo da caverna, um eco lhes repetisse as palavras dos que passam,
não julgariam certo que os sons fossem articulados pelas sombras dos objetos?

GLAUCO - Claro que sim.

SÓCRATES - Em suma, não creriam que houvesse nada de real e verdadeiro fora das
figuras que desfilaram.

GLAUCO - Necessariamente.

SÓCRATES - Vejamos agora o que aconteceria, se se livrassem a um tempo das cadeias e
do erro em que laboravam. Imaginemos um destes cativos desatado, obrigado a levantar-se
de repente, a volver a cabeça, a andar, a olhar firmemente para a luz. Não poderia fazer
tudo isso sem grande pena; a luz, sobre ser-lhe dolorosa, o deslumbraria, impedindo-lhe de
discernir os objetos cuja sombra antes via.
Que te parece agora que ele responderia a quem lhe dissesse que até então só havia visto
fantasmas, porém que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, via
com mais perfeição? Supõe agora que, apontando-lhe alguém as figuras que lhe desfilavam
ante os olhos, o obrigasse a dizer o
que eram. Não te parece que, na sua grande confusão, se persuadiria de que o que antes via
era mais real e verdadeiro que os objetos ora contemplados?

GLAUCO - Sem dúvida nenhuma.

SÓCRATES - Obrigado a fitar o fogo, não desviaria os olhos doloridos para as sombras
que poderia ver sem dor? Não as consideraria realmente mais visíveis que os objetos ora
mostrados?

GLAUCO - Certamente.

SÓCRATES - Se o tirassem depois dali, fazendo-o subir pelo caminho áspero e escarpado,
para só o liberar quando estivesse lá fora, à plena luz do sol, não é de crer que daria gritos
lamentosos e brados de cólera? Chegando à luz do dia, olhos deslumbrados pelo esplendor
ambiente, ser-lhe ia possível discernir os objetos que o comum dos homens tem por serem
reais?

GLAUCO - A princípio nada veria.

SÓCRATES - Precisaria de algum tempo para se afazer à claridade da região superior.
Primeiramente, só discerniria bem as sombras, depois, as imagens dos homens e outros
seres refletidos nas águas; finalmente erguendo os olhos para a lua e as estrelas,
contemplaria mais facilmente os astros da noite que o pleno resplendor do dia.

GLAUCO - Não há dúvida.

SÓCRATES - Mas, ao cabo de tudo, estaria, decerto, em estado de ver o próprio sol,
primeiro refletido na água e nos outros objetos, depois visto em si mesmo e no seu próprio
lugar, tal qual é.

GLAUCO - Fora de dúvida.

SÓCRATES - Refletindo depois sobre a natureza deste astro, compreenderia que é o que
produz as estações e o ano, o que tudo governa no mundo visível e, de certo modo, a causa
de tudo o que ele e seus companheiros viam na caverna.

GLAUCO - É claro que gradualmente chegaria a todas essas conclusões.

SÓCRATES - Recordando-se então de sua primeira morada, de seus companheiros de
escravidão e da idéia que lá se tinha da sabedoria, não se daria os parabéns pela mudança
sofrida, lamentando ao mesmo tempo a sorte dos que lá ficaram?

GLAUCO - Evidentemente.

SÓCRATES - Se na caverna houvesse elogios, honras e recompensas para quem melhor e
mais prontamente distinguisse a sombra dos objetos, que se recordasse com mais precisão
dos que precediam, seguiam ou marchavam juntos, sendo, por isso mesmo, o mais hábil em
lhes predizer a aparição, cuidas que o homem de que falamos tivesse inveja dos que no
cativeiro eram os mais poderosos e honrados? Não preferiria mil vezes, como o herói de
Homero, levar a vida de um pobre lavrador e sofrer tudo no mundo a voltar às primeiras
ilusões e viver a vida que antes vivia?

GLAUCO - Não há dúvida de que suportaria toda a espécie de sofrimentos de preferência a
viver da maneira antiga.

SÓCRATES - Atenção ainda para este ponto. Supõe que nosso homem volte ainda para a
caverna e vá assentar-se em seu primitivo lugar. Nesta passagem súbita da pura luz à
obscuridade, não lhe ficariam os olhos como submersos em trevas?

GLAUCO - Certamente.

SÓCRATES - Se, enquanto tivesse a vista confusa -- porque bastante tempo se passaria
antes que os olhos se afizessem de novo à obscuridade -- tivesse ele de dar opinião sobre as
sombras e a este respeito entrasse em discussão com os companheiros ainda presos em
cadeias, não é certo que os faria rir? Não lhe diriam que, por ter subido à região superior,
cegara, que não valera a pena o esforço, e que assim, se alguém quisesse fazer com eles o
mesmo e dar-lhes a liberdade, mereceria ser agarrado e morto?

GLAUCO - Por certo que o fariam.

SÓCRATES - Pois agora, meu caro GLAUCO, é só aplicar com toda a exatidão esta
imagem da caverna a tudo o que antes havíamos dito. O antro subterrâneo é o mundo
visível. O fogo que o ilumina é a luz do sol. O cativo que sobe à região superior e a
contempla é a alma que se eleva ao mundo inteligível. Ou, antes, já que
o queres saber, é este, pelo menos, o meu modo de pensar, que só Deus sabe se é
verdadeiro. Quanto à mim, a coisa é como passo a dizer-te. Nos extremos limites do mundo
inteligível está a idéia do bem, a qual só com muito esforço se pode conhecer, mas que,
conhecida, se impõe à razão como causa universal de tudo o que é belo e bom, criadora da
luz e do sol no mundo visível, autora da inteligência e da verdade no mundo invisível, e
sobre a qual, por isso mesmo, cumpre ter os olhos fixos para agir com sabedoria nos
negócios particulares e públicos.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Quantos livros você já leu neste ano?


Olá, galera. Enfim, estou aliviado com uma situação em que eu estava em dúvida se estava acontecendo ou não. Graças a Deus está tudo bem e venho aqui compartilhar um pouco dessa felicidade. Estou tentando aos poucos mudar um pouco o foco das postagens até para que não se tornem repetitivas. Venho aqui postar a pequena lista de livros que li este ano. Foram poucos, visto até que me deixei tomar pelo cansaço. Quem quiser compartilhar, sinta-se à vontade para postar nos comentários. Quero também colocar aqui a importância que tem a leitura. Com ela você aprende a se expressar melhor, escrever melhor e até aprender como lidar com situações e sentimentos. A leitura muda o mundo; basta acreditar!

Os livros que li divergiram nos assuntos. Li fantasia em O pequeno príncipe, entendi um pouco sobre a ditadura militar em Ceia de Natal, acompanhei os Cavaleiros do zodíaco em Gigantomaquia e dei continuidade aos meus estudos de língua portuguesa com o autor Mário A. Perini. Procurei sempre diversificar minha leitura e abrir mais ainda minha mente.


- BANDEIRA, Pedro. Pântano de Sangue. São Paulo: Moderna, 1987.
-PERINI, Mário A. Princípios de linguística descritiva: introdução ao pensamento gramatical. São Paulo: Parábola Editorial, 2006.
- RODRIGUES, Nelson. A vida como ela é... Rio de Janeiro: Agir, 2006.
- HAMAZAKI, Tatsuya; KURUMADA, Masami. Gigantomaquia: a história de Mei. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2004.
- HAMAZAKI, Tatsuya; KURUMADA, Masami. Gigantomaquia: história de sangue. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2004.
- MENDONÇA, Hilda. Ceia de Natal. Brasília: Thesaurus / Asefe, 1995.
- SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O pequeno príncipe. Rio de Janeiro: Agir, 2009.
- MARTINS, Luciano. 4 passos para mudar sua vida. Goiânia: Kelps, 2009.
- PERINI, Mário A. Gramática descritiva do português. São Paulo: Ática, 2009.


FRASE: "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas." (O pequeno príncipe, pág. 72)

terça-feira, 4 de maio de 2010

Os sete Potter


Olá, amigos do meu blog! Faz tempo que estou devendo um post sobre a obra de J. K. Rowling, pois li os sete livros da coleção Harry Potter no ano passado e ainda não tinha comentado nada a respeito. Apertem os cintos e vamos viajar! (Cuidado, pois há spoilers!)

Fazendo uma breve introdução da história, começo falando que Harry é um garoto que vive com os tios e é hostilizado por eles, sendo obrigado a dormir debaixo do armário sob a escada, situação contrária a de seu primo Duda, que é mimado pelos pais. Eis que um dia Harry é estranhamente procurado por corujas-correio, que querem entregar uma carta a ele, porém, seu tio não deixa que o garoto abra as cartas e faz o impossível para fugir do correio mágico que procura Harry por todos os cantos. No entanto, isso não é suficiente para esconder o garoto de Hagrid, um guarda-caça, que o encontra e explica a Harry que ele é um bruxo e é muito famoso por ter derrotado um poderoso bruxo das trevas: Lord Voldemort (ou Você-Sabe-Quem). O problema é que Harry não tinha nenhum conhecimento disso, pois era apenas um bebê quando Voldemort matou seus pais. O poderoso bruxo tentou liquidar o menino, porém, a força do amor da mãe de Harry o salvou e o fez se tornar o único sobrevivente. A maldição da morte saiu pela culatra e Voldemort foi seriamente atingido. Ele se tornou um ser fraco e caiu no esquecimento. Só por esse fato, Harry se tornou famoso no mundo dos bruxos.
Tendo Hagrid como seu guia, Harry faz um tour pelo Beco Diagonal - uma espécie de rua de compras dos bruxos - e se enche de apetrechos que irão compor seu material de bruxo. Tais objetos são: varinha, caldeirão, roupas, livros e um animal (coruja, sapo ou gato). Tudo isso para estudar em Hogwarts, a escola de magia e bruxaria.
Na estação de trem, Harry conhece a doce e acolhedora família Weasley e vê em Rony o seu melhor amigo. Durante a viagem que levará para Hogwarts, Hermione se junta ao grupo. Está formado o trio de protagonistas.

Cada livro da série conta um ano da vida escolar de Harry.
Em seu primeiro ano, Harry conhece novos amigos, dentre eles o simpático e amigo diretor de Hogwarts, o professor Dumbledore; o esquisitão professor de poções, Snape; e a sábia Minerva McGonagall. De cara, o garoto já tem seu primeiro encontro com Voldemort, o bruxo caído que tenta voltar à vida de todas as formas. Para isso, o vilão tenta roubar a Pedra Filosofal numa tentativa de retornar de uma vez por todas, mas Harry, Rony e Hermione conseguem impedir seus planos.

No segundo ano, Lúcio Malfoy, pai do mimado e preconceituoso Draco Malfoy, coloca propositalmente o diário de Tom Riddle junto aos materiais de Gina Weasley, irmã mais nova de Rony. Tal fato desencadeia a abertura da Câmara Secreta e o perigo do Basilisco, monstro que petrifica e mata quem olha diretamente em seus olhos. Com a ajuda de Hermione e Rony, Harry encontra a câmara e derrota o monstro (além de salvar uma hipnotizada Gina).

O terceiro ano escolar de Harry é marcado pela notícia de que o Prisoneiro de Azkaban Sírius Black fugiu e está atrás da vida do jovem bruxo. Tudo é mero engano, pois Sírius é padrinho de Harry e deseja encontrar o garoto e protegê-lo. Durante a jornada, Rony fica machucado e é Hermione que vai auxiliar Harry, voltando no tempo e ajudando a resgatar Sírius e Bicuço, o hipogrifo de Hagrid.

A adolescência chega ao auge no quarto ano da vida escolar de Harry. Uma simples competição de quadribol (esporte dos bruxos) acaba em tragédia com a chegada dos Comensais da Morte. Para piorar, no campeonato tribruxo, Harry é escolhido como o quarto competidor pelo Cálice de Fogo e deve enfrentar três desafios. Tudo isso é uma cilada para que o garoto encontre a chave do portal e reencontre novamente com Voldemort. Usando de artifícios de bruxaria, o lorde do mal ressurge com força total, mata Cedrico (o outro campeão tribruxo) e desafia Harry. Harry é salvo da morte certa. Seus próximos anos jamais serão os mesmos.

A Ordem da Fênix protege Harry secretamente em seu quinto ano escolar. Depois de quase ser expulso de Hogwarts por usar magia na frente de trouxas, Harry tem que aguentar as imposições de Dolores Umbridge, uma mulher ditadora que impõe regras conservadoras e impede os alunos de terem aulas práticas de magia. Para isso, Harry e seus amigos criam a Armada de Dumbledore, cujo objetivo é treinar os alunos secretamente. Paralelamente a isso, ninguém acredita em Harry quando este disse que Voldemort voltou. O clímax da história acontece quando os alunos vão para o ministério da magia encontrar uma profecia, que diz sobre Harry e Voldemort: nenhum pode continuar vivendo se o outro não morrer. Para piorar a situação, Belatriz, serva fiel de Voldemort, mata Sírius Black.

N sombrio sexto ano de Harry, o garoto começa a se dar bem na matéria de poções graças ao livro do Príncipe Mestiço. A história do Enigma do Príncipe gira em torno de Harry ser orientado por Dumbledore sobre toda a história de Tom Riddle (Lord Voldemort) e sua ambição de se tornar imortal. Quando consegue extrair as lembranças do professor Horácio, Harry descobre que o instrutor informou a Tom sobre a lenda das horcruxes. Para se tornar imortal, o bruxo deveria matar sete pessoas e assim dividir sua alma em sete objetos. A jornada de Harry seria encontrar as horcruxes e destruí-las para assim enfraquecer a alma de Voldemort. Em contrapartida, Draco Malfoy é instruído por Voldemort durante o ano escolar a matar Dumbledore. Quando o garoto encurrala o diretor e não consegue matá-lo, Snape surge e acaba com a vida de Dumbledore para a surpresa de todos.

A conclusão da história acontece em Relíquias da Morte. A proteção do amor da mãe de Harry acabará quando ele completar 17 anos e por isso ele é escoltado pela Ordem da Fênix. Olho-Tonto Moody é o primeiro a morrer na jornada. Harry, Hermione e Rony decidem seguir a jornada sozinhos e não contarem para ninguém sobre as horcruxes, como Dumbledore os orientara. A primeira horcruxe já havia sido destruída, pois era o Diário de Tom Riddle. Dumbledore já tinha destruído o anel do avô de Tom. Faltava Harry e seus amigos destruírem o Medalhão de Slytherin, a Taça de Hufflepuff, o Diadema de Ravenclaw, a cobra Nagini e, pasmém, a própria cicatriz de Harry. Após perderem muitos amigos, Harry, Hermione e Rony se reúnem com Neville, Gina e Luna para o combate final em Hogwarts. Voldemort chega a matar Harry com seu Avada Kedrava, porém, o que ele realmente mata é a última horcruxe. Na hora derradeira de matar o garoto, o tiro sai pela culatra e Voldemort tomba morto. Tudo porque o vilão não tinha poder sobre a varinha das varinhas, que é uma relíquia da morte (as outras duas são a capa da invisibilidade de Harry e a pedra da ressurreição). O livro termina mostrando a vida de Harry casado com Gina e Rony casado com Hermione. A cicatriz de Harry nunca mais tinha doído. Tudo estava bem.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Violões que choram...


Olá, galera. Hoje eu dedico este espaço a um dos mais belos poemas de Cruz e Sousa, principal poeta simbolista brasileiro.


VIOLÕES QUE CHORAM...
cruz e sousa
(jan. I897)

Ah! plangentes violões dormentes, mornos,
Soluços ao luar, choros ao vento...
Tristes perfis, os mais vagos contornos,
Bocas murmurejantes de lamento.

Noites de além, remotas, que eu recordo,
Noites da solidão, noites remotas
Que nos azuis da Fantasia bordo,
Vou constelando de visões ignotas.

Sutis palpitações a luz da lua,
Anseio dos momentos mais saudosos,
Quando lá choram na deserta rua
As cordas vivas dos violões chorosos.

Quando os sons dos violões vão soluçando,
Quando os sons dos violões nas cordas gemem,
E vão dilacerando e deliciando,
Rasgando as almas que nas sombras tremem.

Harmonias que pungem, que laceram,
Dedos Nervosos e ágeis que percorrem
Cordas e um mundo de dolências geram,
Gemidos, prantos, que no espaço morrem...

E sons soturnos, suspiradas magoas,
Mágoas amargas e melancolias,
No sussurro monótono das águas,
Noturnamente, entre ramagens frias.

Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

Tudo nas cordas dos violões ecoa
E vibra e se contorce no ar, convulso...
Tudo na noite, tudo clama e voa
Sob a febril agitação de um pulso.

Que esses violões nevoentos e tristonhos
São ilhas de degredo atroz, funéreo,
Para onde vão, fatigadas do sonho
Almas que se abismaram no mistério.

Sons perdidos, nostálgicos, secretos,
Finas, diluídas, vaporosas brumas,
Longo desolamento dos inquietos
Navios a vagar a flor de espumas.

Oh! languidez, languidez infinita,
Nebulosas de sons e de queixumes,
Vibrado coração de ânsia esquisita
E de gritos felinos de ciúmes!

Que encantos acres nos vadios rotos
Quando em toscos violões, por lentas horas,
Vibram, com a graça virgem dos garotos,
Um concerto de lágrimas sonoras!

Quando uma voz, em trêmolos, incerta,
Palpitando no espaço, ondula, ondeia,
E o canto sobe para a flor deserta
Soturna e singular da lua cheia.

Quando as estrelas mágicas florescem,
E no silêncio astral da Imensidade
Por lagos encantados adormecem
As pálidas ninféias da Saudade!

Como me embala toda essa pungência,
Essas lacerações como me embalam,
Como abrem asas brancas de clemência
As harmonias dos Violões que falam!

Que graça ideal, amargamente triste,
Nos lânguidos bordões plangendo passa...
Quanta melancolia de anjo existe
Nas visões melodiosas dessa graça.

Que céu, que inferno, que profundo inferno,
Que ouros, que azuis, que lágrimas, que risos,
Quanto magoado sentimento eterno
Nesses ritmos trêmulos e indecisos...

Que anelos sexuais de monjas belas
Nas ciliciadas carnes tentadoras,
Vagando no recôndito das celas,
Por entre as ânsias dilaceradoras...

Quanta plebéia castidade obscura
Vegetando e morrendo sobre a lama,
Proliferando sobre a lama impura,
Como em perpétuos turbilhões de chama.

Que procissão sinistra de caveiras,
De espectros, pelas sombras mortas, mudas.
Que montanhas de dor, que cordilheiras
De agonias aspérrimas e agudas.

Véus neblinosos, longos véus de viúvas
Enclausuradas nos ferais desterros
Errando aos sóis, aos vendavais e às chuvas,
Sob abóbadas lúgubres de enterros;

Velhinhas quedas e velhinhos quedos
Cegas, cegos, velhinhas e velhinhos
Sepulcros vivos de senis segredos,
Eternamente a caminhar sozinhos;

E na expressão de quem se vai sorrindo,
Com as mãos bem juntas e com os pés bem juntos
E um lenço preto o queixo comprimindo,
Passam todos os lívidos defuntos...

E como que há histéricos espasmos
na mão que esses violões agita, largos...
E o som sombrio é feito de sarcasmos
E de Sonambulismos e letargos.

Fantasmas de galés de anos profundos
Na prisão celular atormentados,
Sentindo nos violões os velhos mundos
Da lembrança fiel de áureos passados;

Meigos perfis de tísicos dolentes
Que eu vi dentre os vilões errar gemendo,
Prostituídos de outrora, nas serpentes
Dos vícios infernais desfalecendo;

Tipos intonsos, esgrouviados, tortos,
Das luas tardas sob o beijo níveo,
Para os enterros dos seus sonhos mortos
Nas queixas dos violões buscando alivio;

Corpos frágeis, quebrados, doloridos,
Frouxos, dormentes, adormidos, langues
Na degenerescência dos vencidos
De toda a geração, todos os sangues;

Marinheiros que o mar tornou mais fortes,
Como que feitos de um poder extremo
Para vencer a convulsão das mortes,
Dos temporais o temporal supremo;

Veteranos de todas as campanhas,
Enrugados por fundas cicatrizes,
Procuram nos violões horas estranhas,
Vagos aromas, cândidos, felizes.

Ébrios antigos, vagabundos velhos,
Torvos despojos da miséria humana,
Têm nos violões secretos Evangelhos,
Toda a Bíblia fatal da dor insana.

Enxovalhados, tábidos palhaços
De carapuças, máscaras e gestos
Lentos e lassos, lúbricos, devassos,
Lembrando a florescência dos incestos;

Todas as ironias suspirantes
Que ondulam no ridículo das vidas,
Caricaturas tétricas e errantes
Dos malditos, dos réus, dos suicidas;

Toda essa labiríntica nevrose
Das virgens nos românticos enleios;
Os ocasos do Amor, toda a clorose
Que ocultamente lhes lacera os seios;

Toda a mórbida música plebéia
De requebros de faunos e ondas lascivas;
A langue, mole e morna melopéia
Das valsas alanceadas, convulsivas;

Tudo isso, num grotesco desconforme,
Em ais de dor, em contorsões de açoites,
Revive nos violões, acorda e dorme
Através do luar das meias noites!


Fonte: www.dominiopublico.gov.br

Resumo: O movimento simbolista é uma reação contra a onda de cientificismo e materialismo a que esteve submetida a sociedade industrial europeia na segunda metade do século XIX. Procuravam resgatar certos valores românticos como o espiritualismo, o desejo de transcendência e de integração com o universo, o mistério, o misticismo, a morte, a dor existêncial (sem cair na afetação sentimental do Romantismo). Buscaram uma linguagem que fosse capaz de sugerir a realidade. Para isso, fizeram uso de símbolos, imagens, metáforas, sinestesias (cruzamento de campos sensoriais diferentes como "amarelo quente"), além de recursos sonoros e cromáticos, tudo com a finalidade de exprimir o mundo interior, intuitivo, anti-lógico e antirracional. Apesar de ser abafado pelo movimento parnasiano no Brasil, tivemos um grande representante que foi Cruz e Sousa.


Fonte do resumo: CEREJA, William Roberto; MAGALHÃES, Thereza Cochar. Português: linguagens: literatura, gramática e redação. São Paulo: Atual, 1994.

*Imagem: Mulher com guitarra, de Renoir, obra do Impressionismo francês.

quarta-feira, 4 de março de 2009

O galante atirador


XLIII
O GALANTE ATIRADOR

O carro atravessava o bosque, quando ele o fez parar à proximidade de um tiro, dizendo que lhe seria agradável atirar algumas balas para matar o Tempo. Matar este monstro não é a ocupação mais trivial e legítima de cada pessoa? - E ele ofereceu galantemente a mão à sua cara, deliciosa e execrável mulher, a esta misteriosa mulher a quem deve tantos prazeres, tantas dores, e talvez também grande parte de seu gênio.

Várias balas bateram longe do alvo proposto; uma delas até cravou-se no teto; e como a encantadora criatura ria loucamente, zombando da inabilidade do esposo, este voltou-se bruscamente para ela e lhe disse: "Observe aquela boneca, lá, à direita, que tem o nariz arrebitado e um jeito tão altivo. Pois bem, caro anjo, faço de conta que é você". E ele fechou os olhos e puxou o gatilho. A boneca foi nitidamente decapitada.

Então, inclinando-se para a sua cara, deliciosa, execrável mulher, sua inevitável e impiedosa Musa, e beijando-lhe respeitosamente a mão, acrescentou: "Ah! Meu caro anjo, quanto lhe agradeço por minha habilidade!"

(autor: Charles Baudelaire)

*Da obra de Charles Baudelaire (1821-1867), mestre da tradição francesa dos poetas malditos, derivaram o anticonvencionalismo de Rimbaud e Lautréamont, a musicalidade de Verlaine e o intelectualismo de Mallarmé. A verve do autor de As flores do mal revela a herança do romantismo negro de Edgar Allan Poe e Gerard de Nerval.

Bibliografia: Baudelaire, Charles. Pequenos Poemas em Prosa. São Paulo: Editora Record, s/d.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

"Olhos de cigana oblíqua e dissimulada"


E com este título introduzo o meu tópico de hoje neste humilde blog. Sem dúvida nenhuma, Dom Casmurro é o meu romance favorito de Machado de Assis. Alegra-me muito ao ver que a Globo adaptou o romance para a televisão e que muitas pessoas possam se encontrar com aquilo que imaginaram um dia quando leram a obra. O meu maior desejo é que pessoas menos favorecidas (entenda-se: analfabetos ou sem acesso a uma boa cultura) possam estar compartilhando em sua telinha um dos maiores romances (e intrigantes) da história da literatura brasileira.

Como a época em que foi escrito o romance foi o Realismo, Machado de Assis procurou mostrar (eu até arriscaria dizer "aprofundar") a teoria das neuroses e os problemas da realidade brasileira, como uma suposta traição. Além de ser narrado em primeira pessoa e manter um constante diálogo com o leitor, Machado nos deixa limitado apenas à visão de Bentinho. Tudo o que está escrito lá foi a maneira como ele sentiu, viu ou interpretou os fatos. Seria mais ou menos como pisar em um chão não muito seguro, sem a certeza de que ele vai ou não aguentar o seu peso. Interpretar uma coisa ou outra, isso vai depender da visão de cada um ao ler a obra, mas ela só nos mostra o ponto de vista do garoto/homem obcecado e morto de ciúmes por sua amada Capitu.

No entanto, agora já colocando o meu ponto de vista sobre a obra, mesmo Bentinho sendo doente de ciúmes, Capitu era muito viva e esperta, como se fosse alguém além de seu tempo. As esconfianças de Bentinho parecem fazer algum sentido para mim em algum momento da obra (será que eu me identifico muito com ele e sou um igual neurótico? Ah, fico contente que não serei o único neste planeta!) que Capitu possa ter vivido algum romance com Escobar. Se a obra mostra as neuroses da época (época até mesmo que supostamente Freud começou a desenvolver suas pesquisas), ela também nos mostra o lado "realista" da sociedade. Enfim, Machado é um gênio ao desenvolver uma obra que tende para esses dois lados e sem mostrar um final concreto.

Parabéns a Globo por fazer essa adaptação e nos livrar momentaneamente de seus Big Brothers. Os telespectadores, como agradecimento, poderiam dar mais audiência para os raros momentos culturais da emissora do que momentos da "casa mais vigiada do Brasil".


*imagem extraída da internet.
**Referência bibliográfica:
ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. São Paulo: FTD, 1999.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

As flores do mal



Olá, amigos! E hoje acaba o mês de outubro. Muitas pessoas comemoram o Halloween, mas por que brasileiros comemoram essa data? Eu sei que é uma festa legal, onde as pessoas se fantasiam de monstros e tal... mas já se perguntaram até aonde vai a identidade americana e até onde há a identidade brasileira?
Se for uma festa de dia das bruxas à moda brasileira, aí eu concordo. Discordo da possibilidade de se imitar totalmente a cultura americana. Nós podemos adaptá-la a nosso modo!

Enfim, dia das bruxas me lembrou de algo gótico. Remeti então ao meu poeta simbolista favorito: Charles Baudelaire! Hoje dedico meu espaço à poesia dele e a uma canção do nosso eterno poeta Renato Russo, onde ele utiliza o nome do livro que imortalizou Baudelaire. Um ótimo final de mês a todos!


"O poeta e crítico francês Baudelaire marcou com sua presença as últimas décadas do século XIX, influenciando a poesia internacional de tendência simbolista. De sua maneira de ser, originaram-se na França os poetas 'malditos'.
Baudelaire inventou uma nova estratégia de linguagem, incorporando a matéria da realidade grotesca à linguagem sublimada do romantismo, criando, dessa maneira, a poesia moderna.
Sua obra-prima é o livro AS FLORES DO MAL, cujos poemas mais antigos datam de 1841. Além de celeuma judicial, o livro despertou hostilidades na impresa e foi julgado, na época, imoral. Leitura obrigatória."

Texto na contra-capa de As Flores do Mal.



O VAMPIRO

Tu que, com uma punhalada,
Invadiste em meu coração triste;
Tu que, forte como manada
De demônios, louca surgiste,

Para no espírito humilhado
Encontrar o leito e o ascendente;
- Infame a que estou atado
Tal como o forçado à corrente,

Como ao seu jogo o jogador,
Como à garrafa o beberrão,
Como aos vermes a podridão,
- Maldita sejas, como for!

Implorei ao punhal veloz
Dar-me a liberdade, um dia,
Disse após ao veneno atroz
Que me amparasse a covardia.

Mas não! o veneno e o punhal
Disseram-me de ar zombeteiro:
"Ninguém te livrará afinal
De teu maldito cativeiro.

Ah" imbecil - de teu retiro
Se te livrássemos um dia,
Teu beijo ressuscitaria
O cadáver de teu vampiro!"

(Charles Baudelaire em As Flores do Mal)


AS FLORES DO MAL
Legião Urbana
Composição: Renato Russo

Eu quis você
E me perdi
Você não viu
E eu não senti
Não acredito nem vou julgar
Você sorriu, ficou e quis me provocar
Quis dar uma volta em todo o mundo
Mas não é bem assim que as coisas são
Seu interesse é só traição

E mentir é fácil demais
Mentir é fácil demais
Mentir é fácil demais
Mentir é fácil demais

Tua indecência não serve mais
Tão decadente e tanto faz
Quais são as regras? O que ficou?
O seu cinismo essa sedução
Volta pro esgoto baby
Vê se alguém lhe quer
O que ficou é esse modelito da estação passada
Extorsão e drogas demais
Todos já sabem o que você faz
Teu perfume barato, teus truques banais
Você acabou ficando pra trás

Porque mentir é fácil demais
Mentir é fácil demais
Mentir é fácil demais
Mentir é fácil demais
Volta pro esgoto baby
e vê se alguém lhe quer



*Bibliografia:
BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal. São Paulo: Editora Martin Claret, 2004.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

O mundo de Sofia


O MUNDO DE SOFIA

Olá para todos! Depois de passar alguns dias sem atualizar o meu querido blog, estou eu aqui de volta! E como cultura é o nome deste blog, estava ainda faltando eu falar de alguma literatura boa para preencher o espaço artístico desse espaço virtual!

O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder, é um livro impressionante que consegue atrair o leitor da primeira até a última página. Cercado por inúmeras questões filosóficas que atraem a curiosidade de todos, você nem sente que está virando as páginas do livro. Confesso que até achei o livro pequeno com apenas as suas 550 páginas de pura diversão. Quero bis! Sei que o autor tentou fazer um romance, e não um curso complexo de filosofia para detalhar Platão, Aristóteles, Demócrito, Hegel, Kierkegaard, Kant... Além das lições de filosofia, você ainda se diverte com a curiosa Sofia, que está em busca da solução de um mistério: saber quem é o seu professor de filosofia e descobrir como vai encontrar Hilde Knag, uma garota que ela nunca viu na vida. Nota 10!


Resumo da contra-capa:

"Às vesperas de seu aniversário de quinze anos, Sofia Amundsen começa a receber bilhetes e cartões postais bastante estranhos. Os bilhetes são anônimos e perguntam a Sofia quem é ela e de onde vem o mundo em que vivemos. Os postais foram mandados do Líbano, por um major desconhecido, para uma tal de Hilde Knag, jovem que Sofia igualmente desconhece.
O mistério dos bilhetes e dos postais é o ponto de partida deste fascinente romance, que vem conquistando milhões de leitores em todos os países em que foi lançado. De capítulo em capítulo, de "lição" em "lição", o leitor é convidado a trilhar toda a história da filosofia ocidental - dos pré-socráticos aos pós-modernos -, ao mesmo tempo em que se vê envolvido por um intrigante thriller que toma um rumo surpreendente."

GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia: romance da história da filosofia / Jostein Gaarder ; tradução João Azenha Jr. - São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

domingo, 29 de junho de 2008

A hora da grande estrela



Aqui coloco Clarice Lispector e uma de suas mais brilhantes obras: A hora da Estrela.
É um livro fascinante, com uma excelente narrativa e uma abertura ou talvez uma transição entre Modernidade e Pós-modernidade.

O começo nos apresenta o narrador Rodrigo S.M., que nos conta a história da nordestina Macabéa e tenta nos mostrar em detalhes o que a protagonista da história não menciona sentir em momento nenhum. Enquanto Rodrigo volta ao passado, se preocupa com as coisas ao seu redor e tenta resolvê-las, Macabéa mostra-se um ser pós-moderno, um ser que não está nem aí, que parece aceitar as coisas como elas são, dando uma idéia de que talvez nem tenha consciência de sua própria existência.

Macabéa parece passar toda a sua vida despercebida ou desprezada por quem a percebe e somente no final, quando as luzes do palco se voltam para a sua imagem e todos percebem a sua existência, ela tem o seu momento de estrela e parece pagar com a vida esse momento.

E assim começa a se mostrar a pós-modernidade. Sem conceito ou um nome próprio para designar esse mundo contemporâneo, parece que esquecemos de dar valor ao ser humano. O homem parece não mais existir para as artes, que agora focam o abstrato, o vazio, o nada. As pinturas têm se tornado abstratas, a música já parte para o lado eletrônico e a voz do homem parece sumir. Os poemas não expressam mais características de alguém que se preocupa com o passado, mas sim como se uma pessoa ficasse rabiscando um papel quando não se tem nada pra fazer (ver o livro "Tudos" de Arnaldo Antunes) ... Se é que me entendem...

Deus parece não existir mais para o homem...

O homem parece não existir mais para ele mesmo...

Para onde então caminha a humanidade?

Para o nada?


OBS: Na foto Clarice Lispector.