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domingo, 22 de janeiro de 2012

NEOQEAV


NEOQEAV
(de onde surgiu)


Meus avós já estavam casados há mais de cinqüenta anos e continuavam jogando um jogo que haviam iniciado quando começaram a namorar.

A regra do jogo era que um tinha que escrever a palavra "NEOQEAV" num lugar inesperado para o outro encontrar e assim quem a encontrasse deveria escrevê-la em outro lugar e assim sucessivamente.

Eles se revezavam deixando "NEOQEAV" escrita por toda a casa, e assim que um a encontrava era sua vez de escondê-la em outro local para o outro achar.

Eles escreviam "NEOQEAV" com os dedos no açúcar dentro do açucareiro ou no pote de farinha para que o próximo que fosse cozinhar a achasse. Escreviam na janela embaçada pelo sereno que dava para o pátio onde minha avó nos dava pudim que ela fazia com tanto carinho.

"NEOQEAV" era escrita no vapor deixado no espelho depois de um banho quente, onde a palavra iria reaparecer depois do próximo banho.

Uma vez, minha avó até desenrolou um rolo inteiro de papel higiênico para deixar "NEOQEAV" na última folha e enrolou tudo de novo.

Não havia limites para onde "NEOQEAV" pudesse surgir.

Pedacinhos de papel com "NEOQEAV" rabiscado apareciam grudados no volante do carro que eles dividiam.

Os bilhetes eram enfiados dentro dos sapatos e deixados debaixo dos travesseiros.

"NEOQEAV" era escrita com os dedos na poeira sobre as prateleiras e nas cinzas da lareira. Esta misteriosa palavra tanto fazia parte da casa de meus avós quanto da mobília. Levou bastante tempo para eu passar a entender e gostar completamente deste jogo que eles jogavam. Meu ceticismo nunca me deixou acreditar em um único e verdadeiro amor, que possa ser realmente puro e duradouro.

Porém, eu nunca duvidei do amor entre meus avós.

Este amor era profundo. Era mais do que um jogo de diversão, era um modo de vida.

Seu relacionamento era baseado em devoção e uma afeição apaixonada, igual as quais nem todo mundo tem a sorte de experimentar. O vovô e a vovó ficavam de mãos dadas sempre que podiam.

Roubavam beijos um do outro sempre que se batiam um contra outro naquela cozinha tão pequena. Eles conseguiam terminar a frase incompleta do outro e todo dia resolviam juntos as palavras cruzadas do jornal. Minha avó cochichava para mim dizendo o quanto meu avô era bonito, como ele havia se tornado um velho bonito e charmoso.

Ela se gabava de dizer que sabia como pegar os namorados mais bonitos.

Antes de cada refeição eles se reverenciavam e davam graças a Deus e bençãos aos presentes por sermos uma família maravilhosa, para continuarmos sempre unidos e com boa sorte.

Mas uma nuvem escura surgiu na vida de meus avós: minha avó tinha câncer de mama. A doença tinha primeiro aparecido dez anos antes.

Como sempre, vovô estava com ela a cada momento.

Ele a confortava no quarto amarelo deles, que ele havia pintado dessa cor para que ela ficasse sempre rodeada da luz do sol, mesmo quando ela não tivesse forças para sair.

O câncer agora estava de novo atacando seu corpo.

Com a ajuda de uma bengala e a mão firme do meu avô, eles iam à igreja toda manhã. E minha avó foi ficando cada vez mais fraca, até que, finalmente, ela não mais podia sair de casa. Por algum tempo, meu avô resolveu ir à igreja sozinho, rezando a Deus para zelar por sua esposa. Então, o que todos nós temíamos aconteceu.

Vovó partiu.

"NEOQEAV" foi gravada em amarelo nas fitas cor-de-rosa dos buquês de flores do funeral da vovó.

Quando os amigos começaram a ir embora, minhas tias, tios, primos e outras pessoas da família se juntaram e ficaram ao redor da vovó pela última vez.

Vovô ficou bem junto do caixão da vovó e, num suspiro bem profundo, começou a cantar para ela.

Através de suas lágrimas e pesar, a música surgiu como uma canção de ninar que vinha bem de dentro de seu ser. Me sentindo muito triste, nunca vou me esquecer daquele momento. Porque eu sabia que mesmo sem ainda poder entender completamente a profundeza daquele amor, eu tinha tido o privilégio de testemunhar a beleza sem igual que aquilo representava.

Aposto que a esta altura você deve estar se perguntando:

"Mas o que NEOQEAV significa?"

Nunca Esqueça O Quanto Eu Amo Você


(desconheço a autoria)

domingo, 27 de novembro de 2011

Era uma vez...


Era uma vez, em um mundo dos sonhos, os sentimentos bons: atenção, compromisso, fidelidade, cuidados e talvez amor.

E era uma vez também, no mesmo mundo, os sentimentos ruins: depressão, angústia, fraqueza, falta de amor próprio, baixa autoestima, ódio, imaturidade e acusações.

Um dia eles resolveram se misturar. Aventuras e desafios pra lá e pra cá.

Infelizmente a mentira tomou conta. A baixo-autoestima fez buscar soluções alternativas que não estavam programadas e só se desvalorizou com isso. A depressão se juntou com as acusações e fizeram reinar a tristeza. A falta de amor próprio enxergava no espelho coisas que não existiam. Depois de tanto se misturarem, o amor se contaminou e virou ódio.

E eles viveram infelizes para sempre!

O narrador da história observou que houve uma luta dos sentimentos bons para que tudo ficasse em equilíbrio, mas os sentimentos ruins, como bons bipolares que são, resolveram estragar tudo. São carentes, imaturos e inconsequentes. Eles acham que amar é ser possessivo.

O pior disso tudo é que, no final, eles precisaram mentir. Mentir para si mesmos, para amigos e familiares. Contar uma mentira até para eles mesmos acreditarem (e se enganarem) que é verdade, para esconder o fracasso estampado em suas almas.

Mentindo para si mesmos, eles se livram da culpa e da consciência pesada; vivem num mundo de ilusões, coitados.

Mentindo para os amigos, eles ganham apoio e disfarçam a sua carência. Precisam que alguém afirme alguma coisa para eles para que não se sintam solitários, pobres coitados.

Mentindo para os familiares, eles talvez ganhem algum afago. Contam tudo para a mãe e afirmam que a culpa é do outro. São bem inconsequentes e mimados.

Ao final, eles até podem ter feito os sentimentos bons sofrerem, mas nunca sairão vitoriosos. A vida vem e derruba com aquele maremoto de aprendizados. Alguns se superam e amadurecem, enxergam a vida de outra forma. Outros insistem em persistir no erro por causa de seu orgulho, de seu ego. Coitados, só têm a perder na vida. Passam por maus bocados, ficam doentes e jamais aprendem.

Quanto aos heróis da história, os sentimentos bons, eles choraram, sentiram algo preso dentro de si e viveram angustiados por breves momentos. Quase ficaram depressivos quando colocaram uma máscara em suas faces, afinal, precisavam sorrir para a vida, para as pessoas no trabalho. Souberam disfarçar bem. Quiseram até insistir na história porque ainda tinham amor em seus corações. Acharam até que estavam falhando no relacionamento. Porém, não estavam se sentindo livres. A melhor coisa que fizeram foi tocar a vida, pois todos merecem ser felizes. Os sentimentos ruins que fiquem para trás, pois nada contribuem. Te levam para o buraco junto com eles.

Os sentimentos felizes agora só precisam se reencontrar e esperar as feridas se curarem, afinal, eles realmente merecem ser felizes e terem muito amor no coração.


FIM


(Por Roberto Borges - criador deste blog)

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Homenagem ao Trovador Solitário


Hoje fez 15 anos que o grande poeta Renato Russo se foi. Mas suas letras, sua revolta, sua harmonia e sua inteligência continuam vivas na memória dos fãs. Coloco aqui uma redação que o Trovador Solitário fez em sua época de escola.



CASA VELHA, EM RUÍNAS

Da distância em que estávamos, só era possível distinguir dentre o verde pedaços soltos de telhas já amarelas, que pareciam flutuar sobre a vegetação que cercara a casa.

Com dificuldade, tentamos nos aproximar mais alguns metros, mas as plantas daninhas que ali moravam pareciam ter vida própria e uma vontade de aprisionar com seus galhos e folhas tudo que se aproximasse delas.

Tentamos a foice, e a luta foi lenta e árdua, o verde resistindo aos golpes que cortavam sua vida, mas conseguimos.

Não havia mais porta: apenas uma placa de madeira inclinada na parede onde estava talhado o nome daquele engenho. Quase não havia parede, só tijolos que ainda sobreviviam, mas que, como o resto, cedo virariam pó.

A escuridão nos impedia de continuar. Tivemos de quebrar as telhas que ainda estavam penduradas no alto, para que fosse possível a entrada da luz do sol que não brilharia por mais tempo.

No chão de madeira as ervas já começavam a surgir. Não havia móveis ou qualquer objeto que indicasse ter havido gente morando naquela casa no passado.
Nem animais. Só o verde, intruso e vitorioso.

Em um dos quartos encontramos livros jogados no chão, uma cadeira, uma mesa e um copo de vidro quebrado. E também um retrato torto, pendurado na parede torta, cheirando a mofo e a pó, a única indicação do passado naquela casa.

O resto eram ruínas que, por contradição, não lembravam o passado e sim a decadência atual.

Começou a escurecer e tivemos de voltar.

E o verde, silencioso, seguiu em sua marcha lenta, para cima e para os lados, até fazer o velho engenho morto submergir de vez.


(Renato Manfredini Júnior)

domingo, 5 de dezembro de 2010

Festa de Baco


FESTA DE BACO


Não durmo mais.
Meu barulho interno está ensurdecedor.
O Sentimento é total inquietude. Vozes, risos, choros, dúvidas.
Não consigo me ouvir.
O lado que grita é hipócrita, preocupado, careta e sério...
Não quero ouvir!
Irei inundá-lo com vinho tinto, bebida profana. Necessária sempre se fez.
Que tinge entranhas e pensamentos com seu sangue entorpecente, curando tudo... Limpando tudo.
Torpor...
Linda palavra perdida em um mundo de várias outras.
Quase não a uso, mas sou adepto de sua prática.
Torpor... Linda palavra.

Não dormirei nunca mais.
Fiz de mim um guardião do sono das outras pessoas.
Ouvindo músicas do século passado, garimpando mais inquietude, o grande falatório interno ecoa. O vinho vermelho penetra.
Única coisa que escuto com clareza é o mas. Conjunção, advérbio, substantivo masculino... Não importa.
Ela sempre será a mais poderosa entre todas as falas.
Chantagens e mentiras. Desculpas e condições. Sempre estará lá, imponente, imperdoável, irrevogável.

Para que dormir? Juntar-me-ei ao ensurdecedor debate que em mim ocorre.
Idéias novas surgem. Funestas e tentadoras como o vinho que as rega.
Para alguns, pareceriam reprováveis. Mas, e aí está a poderosa fala, quem decide isso ainda sou eu.
Digno de uma comédia-dramática europeia é esse falatório.

O que é dormir?


(Este texto tem autor. Depois quero pesquisar pra ver se é de algum conhecido colega)

domingo, 14 de março de 2010

Geni e o Zepelin



Por fim, coloco uma outra música do mestre Chico que me marcou muito: Geni e o Zepelim. Aqui notamos que é fácil excluir alguém do meio social por tal conduta e atirar pedras e bostas. Porém, quando há interesses da sociedade, da igreja e do poder, eles se ajoelham para que Geni salve a cidade. Geni poderia ser até uma referência a Gênesis, onde ela irá construir (ou reconstruir) um lugar, fazer renascer, livrando todo aquele povo da ira do comandante do zepelim. Quando Geni pensa que todas as agressões acabaram por ela ter sido uma heroina, logo vem a cidade pronta para atacá-la novamente. Ideia genial de Chico Buarque!


GENI E O ZEPELIM
Chico Buarque
Composição: Chico Buarque

De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato
É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato
E também vai amiúde
Com os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir

Joga pedra na Geni
Joga pedra na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante
Um enorme zepelim
Pairou sobre os edifícios
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo - Mudei de idéia
- Quando vi nesta cidade
- Tanto horror e iniqüidade
- Resolvi tudo explodir
- Mas posso evitar o drama
- Se aquela formosa dama
- Esta noite me servir

Essa dama era Geni
Mas não pode ser Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Mas de fato, logo ela
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro
Acontece que a donzela
- e isso era segredo dela
Também tinha seus caprichos
E a deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão

Vai com ele, vai Geni
Vai com ele, vai Geni
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni

Foram tantos os pedidos
Tão sinceros, tão sentidos
Que ela dominou seu asco
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco
Ele fez tanta sujeira
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir

Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Cotidiano



Olá, amigos do meu blog. Entre idas e vindas na ponte "minha casa" e na "cidade de trabalho", tento me livrar do cotidiano, do tédio e das atribulações da vida. As coisas estão se ajeitando e tudo o que estou passando faz parte de um processo inicial, como já foi bem descrito anteriormente aqui no meu canto cultural. E por isso eu coloco a música "Cotidiano" do mestre Chico Buarque. Lembro-me de uma atividade de campo do meu curso de Letras em que fiz uma peça musical com essa música. Coloco essa música e no post acima, como vocês já devem ter observado, coloquei a música Geni, outra música que encenei na atividade de campo da faculdade. Um grande abraço e um beijo para o amore mio!



COTIDIANO
Chico Buarque)

Todo dia ela faz
Tudo sempre igual
Me sacode
Às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca
De hortelã...

Todo dia ela diz
Que é pr'eu me cuidar
E essas coisas que diz
Toda mulher
Diz que está me esperando
Pr'o jantar
E me beija com a boca
De café...

Todo dia eu só penso
Em poder parar
Meio-dia eu só penso
Em dizer não
Depois penso na vida
Prá levar
E me calo com a boca
De feijão...

Seis da tarde
Como era de se esperar
Ela pega
E me espera no portão
Diz que está muito louca
Prá beijar
E me beija com a boca
De paixão...

Toda noite ela diz
Pr'eu não me afastar
Meia-noite ela jura eterno amor
E me aperta pr'eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor...

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Estrelas em greve


ESTRELAS EM GREVE
(João A. Carrascoza)

Todas as noites, as mulheres se punham diante da televisão para ver as novelas. Os
homens cochilavam no sofá e a criançada brincava com os computadores. Ninguém tinha
tempo de olhar para o céu.

Sem plateia, as estrelas decidiram entrar em greve por tempo indeterminado. A
Lua, solidária com as amigas, aderiu ao protesto e também se escondeu.
Foi um fuzuê no mundo inteiro. As galinhas, que dormiam com a estrela-d'alva,
perderam o sono e deixaram de botar ovos. As corujas pararam de piar. Os tatus não
saíram mais das tocas. Os grilos silenciaram. Os anjos da guarda, que desciam à noitinha
para ninar as crianças, perdiam-se no caminho. As damas da noite não abriram mais suas
pétalas. No escuro, o vento não enxergava nada e não sabia para onde soprar. Os poetas
caíram em desânimo e a produção de poesia imediatamente cessou. Os agricultores
ignoravam se era ou não a época certa para semear. As marés, desorientadas, subiam e
desciam à deriva.

Então, os homens descobriram que aquilo tinha a ver com o sumiço das estrelas.
Chamaram os melhores astrônomos, mas eles não souberam explicar o ocorrido.
Convocaram as feiticeiras para resolver o assunto, elas fizeram lá suas mandingas, mas
não adiantou nada. Estava tudo um caos.

Até que, numa noite, um homem saiu de casa e se pôs a contemplar o céu na
escuridão. Lembrou-se de que a mãe lhe ensinara a posição do Cruzeiro do Sul. Outro se
juntou a ele e recordou as histórias de Lua cheia, quando aparecia o lobisomem. Um velho
ouviu a conversa dos dois e veio contar que, quando criança, tinha visto o Cometa Halley.
Apareceu uma mulher e comentou que só cortava os cabelos na Lua minguante. Outra
mulher falou que, havia alguns anos, vira uma estrela cadente e fizera um pedido. O
marido ouviu-a e disse que o pedido era ter o amor dele para sempre. Outro homem
contou que lhe nascera uma verruga no dedo porque, quando garoto, apontara para as
Três-Marias. Aos poucos, as pessoas foram saindo de suas casas e cada uma tinha sua
história para contar sobre a Lua e as estrelas.
Quando estavam todos na rua olhando o céu vazio, as estrelas, que os observavam
do fundo da noite, apareceram de surpresa, acendendo-se ao mesmo tempo. Foi lindo:
parecia uma chuva de gotas prateadas. Em seguida, despontou a Lua, com seu brilho
magnífico, como um holofote.

Então todos entenderam o motivo daquela greve. E, imediatamente, decidiram em
consenso: podiam ver televisão, dormir no sofá e brincar com o computador todas as
noites. Mas, de vez em quando, iriam dar uma espiadinha no céu para ver o show das
estrelas.

Revista Nova Escola, São Paulo: Abril, nov. 1997. nº 107. p. 30 e 31 (adaptação)

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Lígia - Psicologia em luto!


Olá, amigos leitores do meu blog. A semana foi um tanto difícil pra mim. Perdi um ente querido, uma irmã, a primeira dos sete filhos, aquela que me incentivou muito, que acreditou em mim. Lígia é o seu nome. Ainda lembro de quando eu era pequeno, passava alguns dias em sua casa, assistia filmes da Turma da Mônica, era presenteado com alguma novidade, com algum brinquedo bom e legal. Ela realmente tinha apostado muita coisa em mim. Aprendi a ler e a escrever precocemente porque ela sempre lia historinhas em quadrinhos pra mim. A empolgação da leitura me deixava curioso pra poder caminhar com minhas próprias pernas e ter mais vontade de aprender sozinho.

Ah, como você foi muito importante pra mim... Sempre me elogiava, acreditava em mim, ficava feliz com as minhas notas altas na escola. Eu sempre ganhava presentes no aniversário, dia das crianças, natal... Na época da coleção dos bonequinhos dos Cavaleiros do Zodíaco, você me deu dois. Sabia o quanto era especial pra mim ter toda aquela coleção. Você contribuiu para isso. Por isso, sempre gostei dos seus filhos, seus dois filhos. Sempre brinquei com eles, dei atenção, ensinei coisas. Era minha missão e minha obrigação cuidar bem deles.

Chegou, então, a vida adulta. Você me ajudou a fazer um cursinho pré-vestibular e depois ajudou a cursar uma faculdade. Como eu fiz questão de ter notas acima de 8 só pra corresponder à fé que você depositou em mim. Tirei um 10 na monografia e o seu nome está lá especialmente para agradecer pelo apoio. E você ainda fez questão de ir ver minha colação de grau. Um momento único que nunca mais se repetirá, pois a família toda estava lá... Hoje, dois pedaços dessa família não estão mais presentes...

Também fiquei muito feliz quando você terminou a faculdade de psicologia. Fiquei apenas meio chateado pensando que você convidaria certas pessoas para irem à sua colação de grau e ao seu baile, mas me animei quando você disse que aquela bruxa não iria... Foi ótimo. Me diverti muito. Eu esperava vê-la feliz, muito feliz. Longe dessa outra família de carrascos, estúpidos, falsos, mentirosos e arrogantes. Não mereciam a sua ilustre presença. Você tinha brilho próprio e despertava a inveja alheia, pois jamais serão o que você foi. Mas você se foi...

O Céu está em festa, mas nós aqui ficamos muito tristes. Minha mãe perdeu a princesa dela. Os dias têm sido muito difíceis... pensamentos, reflexões, querendo achar algo ou alguém para colocar a culpa... Não adianta, nada vai te trazer de volta. Até porque foi difícil e ainda está sendo difícil de acreditar em tudo o que aconteceu. Será que algum dia acordaremos deste pesadelo horrível? Mesmo depois de ter te visto dormindo eternamente linda e elegante, não acredito... Foi um infarto fulminante, uma morte silenciosa. Foi dormindo, aparentemente sem sofrer muito, até porque não havia sinais de dor e nem seus filhos perceberam algo de diferente nas horas e dias anteriores. Ah, que saudade...

A gente pensa que vai ter as pessoas para sempre ou pelo menos por algum tempo, aí vem a vida e dá mais essa lapada... Não sei que tipo de provação Deus está colocando em nossas vidas, até porque já temos uma outra situação a caminho. Era essa a que todos estavam esperando que acontecesse de uma hora pra outra e não você... Foi um choque, um tremendo choque. Logo você, era uma boa filha, uma boa irmã, uma boa mãe, uma boa companheira de trabalho, uma boa colega de faculdade... Todos te admiram muito.

Deus falou que iria te dar uma vitória e uma moradia muito feliz. Você se livraria daquele grude em sua alma que não conseguia se livrar. Interpretamos de um jeito achando que fosse em um outro lugar físico, mas os planos de Deus foram outros. Você está do lado dEle agora. Aquelas outras pessoas ainda terão que viver e pagar em vida pela sacanagem e inveja contra você. Irão sofrer muito. Sou um humano pecador e por isso digo que quero assistir de camarote a esse sofrimento... Traições do outro lado da família não vão apagar o que você foi, principalmente agora que a sua imagem ficará eterna. Você venceu!

As cortinas do show de sua vida agora se fecham, mulher admirável, psicóloga, boa filha, boa mãe, boa irmã, mulher de brilho próprio...

A seguir, os meus eternos aplausos.

domingo, 23 de agosto de 2009

O que é o AMOR? (post especial)


Olá, amigos. Na época de faculdade, ao finalizar sua apresentação, um grupo de colegas levou uma mensagem para a turma. Essa mensagem não era qualquer uma, mas sim A MENSAGEM. É um texto que ocupa apenas um lado de uma folhinha pequena, já que a letra está minúscula, mas que contém uma grande mensagem de amor mesclada a músicas da nossa MPB. O texto intercala uma descrição de "estar apaixonado" com as músicas. Confira:


O QUE É O AMOR?

O poeta diz que o amor, quando desabrocha, é tal qual uma avalanche que devora quem está descuidado...
Porém, também, o poeta fala que estar apaixonado, enamorado, é esquecer de si mesmo e mergulhar na aventura da paixão sem censura e sem pudor.
Enamorar-se é deixar a razão de lado e permitir que a emoção borbulhe incessantemente povoando a mente até se permitir desvendar o torturante e fantástico enigma do amor e da paixão.
Dizem que a música é excelente terapia.
Você está aí parado, deixando que a química do amor e da paixão desfaleça, acorde! Surpreenda-se e declare-se apaixonadamente por uma causa, por um sonho, por alguém. Quem sabe, pela vida mesmo!
Cante:

"Não estou disposto a esquecer seu rosto de vez, eu acho que é tão normal. Dizem que sou louco por eu ter um gosto assim, gostar de quem não gosta de mim. Jogue suas mãos para os céus e agradeça se acaso tiver alguém que você gostaria que estivesse sempre com você na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê".

Que bom, hein? E por que não deixar os melindres de lado e cantar para alguém que deseja tanto e não tem coragem de dizer:

"Eu preciso te falar, te encontrar de qualquer jeito, pra sentar e conversar, depois andar de encontro ao vento. Eu preciso respirar o mesmo ar que te rodeia e na pele quero ser o mesmo sol que te bronzeia, eu preciso te tocar e ver a vida acontecer como um dia de domingo".

Daí, meus caros, o amor vinga e a paixão vinga e tudo vinga de fato... daí você poderá surpreender-se e começar a declarar:

"Eu tenho tanto pra te falar, mas com palavras não sei dizer como é grande o meu amor por você...".

E você aos poucos percebe que vai ficando abobalhado e continua passageiro das asas da emoção e canta:

"Quisera ser um peixe para em seu límpido aquário mergulhar, fazer borbulhas de amor pra te encontrar, passar a noite em claro dentro de ti, um peixe para enfeitar de corais sua cintura, fazer silhueta de amor à luz da lua..."

E, olhe... Cuide-se! Não deixe sua paixão escorrer por entre os dedos. Quem não gosta de experimentar o sentimento? Alguém poderá cantar:

"Por que você me deixa tão solto? Por que você não cola em mim? To me sentindo muito sozinho. Quando a gente gosta é claro que a gente cuida, fala que me ama só que é da boca pra fora... Ou você me engana ou não está maduro. Onde está você agora?"

Mas também não estresse. Se você está no estágio capaz de entusiasmar-se pelo amor, pela paixão, pense melhor e busque alcançar o sonho dos poetas, cante como um artista:

"Viver e não ter a vergonha de ser feliz, cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz. Eu sei que a vida seria bem melhor e será, mas isso não impede que eu repita: é bonita, é bonita e é bonita..."

E aí, sem escrúpulos, ultrapasse as barreiras do impossível, porque estas não existem e cante para a vida:

"Deixa eu dizer que te amo... deixa eu gostar de você... Isso me acalma, me acolhe a alma, isso me ajuda a viver. Hoje contei pras paredes coisas do meu coração, passando o tempo, caminha as horas, mas o que não passa é a paixão..."

E então você verá que "nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia..."

quarta-feira, 4 de março de 2009

O galante atirador


XLIII
O GALANTE ATIRADOR

O carro atravessava o bosque, quando ele o fez parar à proximidade de um tiro, dizendo que lhe seria agradável atirar algumas balas para matar o Tempo. Matar este monstro não é a ocupação mais trivial e legítima de cada pessoa? - E ele ofereceu galantemente a mão à sua cara, deliciosa e execrável mulher, a esta misteriosa mulher a quem deve tantos prazeres, tantas dores, e talvez também grande parte de seu gênio.

Várias balas bateram longe do alvo proposto; uma delas até cravou-se no teto; e como a encantadora criatura ria loucamente, zombando da inabilidade do esposo, este voltou-se bruscamente para ela e lhe disse: "Observe aquela boneca, lá, à direita, que tem o nariz arrebitado e um jeito tão altivo. Pois bem, caro anjo, faço de conta que é você". E ele fechou os olhos e puxou o gatilho. A boneca foi nitidamente decapitada.

Então, inclinando-se para a sua cara, deliciosa, execrável mulher, sua inevitável e impiedosa Musa, e beijando-lhe respeitosamente a mão, acrescentou: "Ah! Meu caro anjo, quanto lhe agradeço por minha habilidade!"

(autor: Charles Baudelaire)

*Da obra de Charles Baudelaire (1821-1867), mestre da tradição francesa dos poetas malditos, derivaram o anticonvencionalismo de Rimbaud e Lautréamont, a musicalidade de Verlaine e o intelectualismo de Mallarmé. A verve do autor de As flores do mal revela a herança do romantismo negro de Edgar Allan Poe e Gerard de Nerval.

Bibliografia: Baudelaire, Charles. Pequenos Poemas em Prosa. São Paulo: Editora Record, s/d.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Meu guri





Estava faltando um espaço maior para ele no meu blog: Chico Buarque! Um grande gênio da MPB com letras que montam crônicas, críticas, desvendam a alma feminina... enfim, tantas qualidades da música desse gênio que seria impossível colocá-las todas aqui. Eu gosto de muitas e muitas músicas dele, mas hoje eu coloco uma que me chama muito a atenção: O meu guri.

O ponto de vista da música é de uma mãe e a sua narração em primeira pessoa nos mostra mais de perto o acompanhamento das fases do filho e o orgulho que essa mulher sente dele. Ao que aparenta, os dois moram em uma favela e o guri foi criado sem pai. A sua mãe sempre fez um grande esforço para tocar a vida pra frente como podia. O garoto tenta sempre agradá-la trazendo presentes para encabulá-la e, ao que parece, praticado assaltos para conseguir tudo isso.

Chico é um gênio ao mostrar no decorrer da música o orgulho que uma mãe sente por seu filho. Ela deposita nele sua confiança e sente muita vontade em vê-lo vencer na vida, típico de toda mãe bondosa.


O MEU GURI
Chico Buarque

Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando, não sei lhe explicar
Fui assim levando ele a me levar
E na sua meninice ele um dia me disse
Que chegava lá
Olha aí
Olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega

Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Tanta corrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega

Chega no morro com o carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assaltos tá um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega

Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço?
Fazendo alvoroço demais
O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço
Ele disse que chegava lá
Olha aí, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

A última crônica


A ÚLTIMA CRÔNICA
(Fernando Sabino)

"A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso."


->Crônica publicada no livro "A Companheira de viagem" (Editora Record, 1965)

Comentário meu: Olá para todos! Depois de alguns dias sem atualizar, estou de volta. Agradeço as energias positivas que as pessoas estão enviando e que Deus proteja todos nós. Para continuar com a qualidade do meu blog, coloco aqui a crônica de que mais gosto do Fernando Sabino. Simples, tocante e humilde. Certamente algo que tocaria a muitos ver esse sorriso puro mencionado. Até a próxima!

*Foto extraída da internet.
**Diga não à pedofilia!