terça-feira, 13 de outubro de 2009

Estrelas em greve


ESTRELAS EM GREVE
(João A. Carrascoza)

Todas as noites, as mulheres se punham diante da televisão para ver as novelas. Os
homens cochilavam no sofá e a criançada brincava com os computadores. Ninguém tinha
tempo de olhar para o céu.

Sem plateia, as estrelas decidiram entrar em greve por tempo indeterminado. A
Lua, solidária com as amigas, aderiu ao protesto e também se escondeu.
Foi um fuzuê no mundo inteiro. As galinhas, que dormiam com a estrela-d'alva,
perderam o sono e deixaram de botar ovos. As corujas pararam de piar. Os tatus não
saíram mais das tocas. Os grilos silenciaram. Os anjos da guarda, que desciam à noitinha
para ninar as crianças, perdiam-se no caminho. As damas da noite não abriram mais suas
pétalas. No escuro, o vento não enxergava nada e não sabia para onde soprar. Os poetas
caíram em desânimo e a produção de poesia imediatamente cessou. Os agricultores
ignoravam se era ou não a época certa para semear. As marés, desorientadas, subiam e
desciam à deriva.

Então, os homens descobriram que aquilo tinha a ver com o sumiço das estrelas.
Chamaram os melhores astrônomos, mas eles não souberam explicar o ocorrido.
Convocaram as feiticeiras para resolver o assunto, elas fizeram lá suas mandingas, mas
não adiantou nada. Estava tudo um caos.

Até que, numa noite, um homem saiu de casa e se pôs a contemplar o céu na
escuridão. Lembrou-se de que a mãe lhe ensinara a posição do Cruzeiro do Sul. Outro se
juntou a ele e recordou as histórias de Lua cheia, quando aparecia o lobisomem. Um velho
ouviu a conversa dos dois e veio contar que, quando criança, tinha visto o Cometa Halley.
Apareceu uma mulher e comentou que só cortava os cabelos na Lua minguante. Outra
mulher falou que, havia alguns anos, vira uma estrela cadente e fizera um pedido. O
marido ouviu-a e disse que o pedido era ter o amor dele para sempre. Outro homem
contou que lhe nascera uma verruga no dedo porque, quando garoto, apontara para as
Três-Marias. Aos poucos, as pessoas foram saindo de suas casas e cada uma tinha sua
história para contar sobre a Lua e as estrelas.
Quando estavam todos na rua olhando o céu vazio, as estrelas, que os observavam
do fundo da noite, apareceram de surpresa, acendendo-se ao mesmo tempo. Foi lindo:
parecia uma chuva de gotas prateadas. Em seguida, despontou a Lua, com seu brilho
magnífico, como um holofote.

Então todos entenderam o motivo daquela greve. E, imediatamente, decidiram em
consenso: podiam ver televisão, dormir no sofá e brincar com o computador todas as
noites. Mas, de vez em quando, iriam dar uma espiadinha no céu para ver o show das
estrelas.

Revista Nova Escola, São Paulo: Abril, nov. 1997. nº 107. p. 30 e 31 (adaptação)

2 comentários:

joao carlos tv disse...

a professora deu isso hoje

Jullýe Wiccato disse...

Nossa que lindo , eu já tinha lido esse poema mas me esqueci aí procurei ele no Google para ler ele de novo,é lindo!